Cordia trichotoma (Vell.) Arrab. ex Steud.

Freijó, frei-jorge, louro, louro-pardo, malvão, pereiro-malva

Árvore inerme, caducifólia a  subcaducifólia, heliófila, monoica, até 18 m de altura e 45 cm de DAP. Casca externa cinzenta a pardacenta, irregularmente sulcada; casca interna  brancacenta, passando a marrom após o corte. Madeira moderadamente pesada, de cor amarelada a marrom-escura, geralmente com listras quase negras. Folhas simples, alternas, elípticas, discolores, velutinas na face inferior, de margem inteira, com 8-14 x 4-7 cm; pecíolo com 2-5 cm de comprimento. Inflorescências terminais, grandes, vistosas, pilosas, muito ramificadas, com 15-30 cm de comprimento. Flores diclamídeas, pentâmeras, actinomorfas, hermafroditas,  muito perfumadas, com 15-20 mm de comprimento; corola branca ou branco-rosada, larga no ápice, afunilada na base e aderida ao cálice e ao fruto. Frutos oblongos ou elipsoides, indeiscentes, monospermos, com 7-10 x 2-3 mm. Sementes pouco menores que os frutos.

Ocorre na Argentina, Paraguai, Bolívia e no Brasil, dispersa nas unidades federativas das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, e no estado do Tocantins. É encontrado em toda a área de abrangência do Cerrado, em florestas estacionais perenifólias, subcaducifólias e caducifólias e em florestas ribeirinhas, demonstrando preferência por solos de média a alta fertilidade.

Floresce, seguindo o mesmo padrão de C. alliodora, ao longo dos meses de maio e junho, com uma parte das folhas velhas ainda presente. Perde o restante das folhas senescentes ao longo dos demais meses da estação seca, ao mesmo tempo em que, gradativamente, vai emitindo folhas novas. Os frutos amadurecem cerca de 2 meses após a floração. As sementes são dispersas pelo vento, aderidas ao fruto e ao perianto, com a corola funcionando como aparato de flutuação. As flores são frequentadas por beija-flores e por uma grande diversidade de insetos, com destaque para himenópteros e lepidópteros. Contudo, existem indicativos de que a antese é crepuscular e que a polinização é realizada por mariposas e abelhas.

A madeira é muito parecida com a de C. alliodra e, portanto, é muito apreciada para confecção de móveis, portas, janelas, esquadrias, tábuas e tacos para pisos, laminados, tonéis, instrumentos musicais, peças decorativas, hélice de aeroplanos e dormentes, e para construir estruturas de telhado, carrocerias, embarcações etc. As flores oferecem néctar e pólen aos seus visitantes. O néctar é considerado diferenciado, por dar origem a mel claro, aromático e saboroso. A espécie reúne atributos que a tornam altamente apropriada para arborização urbana e rural, recomposição de áreas desmatadas, plantios para produção de madeira nobre  e implantação de sistemas agroflorestais, como já vem ocorrendo em algumas regiões do Brasil.

Os frutos de C. trichotoma, como os de C. alliodora e C. glabrata, são considerados maduros e com sementes bem formadas quando se desprendem da árvore e estão intumescidos e firmes. As sementes, quando colocadas em sacos de pano ou de papel kraft e mantidas em câmara fria seca  (com 10 ºC a 12 ºC e 60% de umidade relativa), podem se manter viáveis por um período de até três anos (Rodrigues et al., 1986). Contudo, o ideal é colocá-las para germinar logo após a queda dos frutos, removendo-se apenas as pétalas a eles aderidas. A semeadura deve ser realizada em canteiros ou em recipientes parcialmente sombreados, contendo terra argilo-arenosa misturada com esterco bovino na proporção de 2:1.  Com esses procedimentos a emergência das plântulas se inicia entre 15 e 30 dias após a semeadura e a taxa de germinação pode chegar a 80%. As plântulas devem ser repicadas quando atingem 5 cm de altura e só devem ser plantadas no local definitivo quando estiverem com mais de 20 cm de altura. O plantio pode em áreas ensolaradas ou parcialmente sombreadas, mas é importante que os solos sejam de média a alta fertilidade ou que se adicione calcário, matéria orgânica e NPK nas covas ou sulcos, com base em resultados de análises físico-químicas do solo. Kielse et al. (2013) demonstraram que é possível produzir mudas C. trichotoma por meio de estacas de raízes tratadas com ácido indolbutírico (AIB) na dose de 30 mM. O crescimento da mudas no campo tem sido avaliado como moderado a rápido. C. trichotoma é relativamente frequente nos remanescentes florestais do Cerrado e possui populações em unidades de preservação de proteção integral e em áreas de preservação permanente nesse bioma. Porém, é uma espécie que foi muito explorada no passado, para aproveitamento da madeira, e os remanescentes aonde ela subsiste estão sob ameaça de serem reduzidos, invadidos por gado e assolados por incêndios.

Espécies afins

Este trabalho aborda 6 espécies arbóreas do gênero Cordia com ocorrência comprovada no Cerrado. As espécies com maiores semelhanças entre si são C. alliodora, C. glabrata e C. trichotoma, que às vezes são encontradas em uma mesma localidade. A distinção entre elas pode ser feita por meio do quadro abaixo.

Características distintivas C. alliodora C. glabrata C. trichotma
Odor de alho nos órgãos vegetativos Sim Não Não
Dilatações ocas nos ramos Sim Não Não
Pilosidade na lâmina foliar Moderada Ausente Densa
Comprimento da flor 12-15 mm ± 30 mm 15-20 mm

Árvore florida em floresta ribeirinha. Abadia dos Dourados (MG), 19-06-2014

Superfície do ritidoma. Abadia dos Dourados (MG), 19-06-2014

Cacho de inflorescências. Abadia dos Dourados (MG), 12-06-2014

LITERATURA

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